é o sistema.

Estado & Mercado · Ensaio

Quem tem medo dos comunistas escandinavos?

Têm impostos altíssimos, sindicatos fortíssimos e Estados enormes. Só há um pequeno problema com a caricatura: as economias são profundamente capitalistas.

Em poucas palavras
  • Muito Estado e muito mercado podem coexistir. A questão é como se articulam produção, protecção social, negociação e regras.
  • Uma base fiscal larga depende de produtividade e emprego. Serviços usados pela classe média podem sustentar o apoio ao financiamento colectivo.
  • Copiar uma medida isolada não reproduz o modelo: flexibilidade precisa de segurança, negociação precisa de coordenação e poder público precisa de capacidade e limites.
Neste artigo

Se quiséssemos desenhar o pesadelo de um ultraliberal, a Escandinávia seria um bom lugar para começar.

Em 2024, na Dinamarca, os impostos e contribuições sociais obrigatórias representavam 45,2% do PIB, o valor mais elevado da OCDE. Na Suécia, 41,4%. Há sindicatos poderosos, negociação colectiva, saúde e educação largamente financiadas pelo Estado e redes de protecção social generosas. Em Portugal, para comparação, a carga fiscal representava 35,1% do PIB; em Espanha, 36,7%.

Fundamentar · Carga fiscal · OCDE, 2024

Revenue Statistics 2025. Percentagem do PIB, incluindo contribuições sociais obrigatórias; dados preliminares de 2024. Não é a taxa de imposto de uma família ou empresa.

Consultar a referência ↗

Caso encerrado: socialismo.

Só que não.

As economias são de mercado. As empresas são maioritariamente privadas. Os países estão profundamente integrados no comércio internacional e têm mercados de capitais desenvolvidos.

Mas isso já todos sabíamos, não era?

A pergunta interessante é outra.

Como é que dois países conseguem ter tanto Estado sem aparentemente sufocarem tanto mercado?

É aqui que a história começa.

01

Estado ou mercado? Sim.

Habituámo-nos a imaginar uma régua.

Numa ponta está o mercado. Na outra, o Estado. Quanto mais caminhamos numa direcção, menos sobra da outra.

É intuitivo.

E é uma péssima forma de perceber os países nórdicos.

Uma economia de mercado responde sobretudo à pergunta: quem produz, investe e decide onde aplicar recursos?

Um Estado social responde a outra: como partilhamos riscos como doença, desemprego, educação ou velhice?

E ainda há uma terceira pergunta: quem organiza a relação entre trabalhadores e empresas?

Os nórdicos não escolheram uma única resposta para tudo.

Usam empresas e mercados para grande parte da produção e investimento. Usam o Estado para financiar serviços e socializar riscos. Usam sindicatos e organizações patronais para organizar uma parte importante das relações laborais.

E precisam de uma quarta peça que costuma desaparecer da discussão: um Estado capaz de fazer as regras funcionar.

Visto assim, o modelo deixa de parecer uma posição num eixo esquerda-direita.

Parece mais uma arquitectura.

Explicar · Que países estamos a comparar?

O argumento centra-se na Dinamarca e na Suécia. “Nórdico” abrange também Finlândia, Islândia e Noruega; não implica instituições idênticas em todos estes países.

Explorar a arquitectura

Quatro peças. Nenhuma funciona sozinha.

Síntese interpretativa do artigo · escolha uma peça para seguir o argumento

Quem produz e investe?

Empresas e concorrência mobilizam recursos para criar valor.

De que depende · Precisam de regras previsíveis e de espaço para entrar, crescer e inovar.

Onde pode falhar · Proteger incumbentes pode enfraquecer a disciplina da concorrência.

O que permite ao privado funcionar? ↗
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02

Muito Estado. Muito mercado.

Os dados ajudam.

O Banco Mundial mede aquilo a que chama Regulatory Quality: um indicador agregado, construído a partir de múltiplas fontes e percepções, sobre a capacidade do Estado para formular e aplicar políticas e regulações que permitam e promovam o desenvolvimento do sector privado.

Não mede simplesmente “quanta regulação existe”, e não deve ser lido dessa forma.

Mas o contraste é revelador.

Em 2024, na escala de pontuação de 0 a 100, a Dinamarca tinha 85,3, a Suécia 81,2, Portugal 66,5 e Espanha 64,7.

Fundamentar · Qualidade regulatória · Banco Mundial, 2024

Worldwide Governance Indicators, revisão de 2025. A escala Governance score (0–100) é diferente do ranking em percentis. São estimativas agregadas com incerteza, não uma contagem de regras nem uma demonstração de causalidade.

Consultar a referência ↗

Ou seja, os países desta comparação com maior carga fiscal estão também bastante acima de Portugal e Espanha num indicador desenhado precisamente para avaliar a qualidade da regulação para o desenvolvimento privado.

Isto não prova que impostos altos façam bem às empresas.

Sustenta uma conclusão mais modesta — e mais interessante:

Estado grande e Estado sufocante não são sinónimos.

Talvez tenhamos andado a medir a variável errada.

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03

É preciso produzir para distribuir. E distribuir para produzir.

Claro que há uma condição pouco romântica para manter um Estado social deste tamanho.

Alguém tem de pagar a conta.

Portugal continua com uma produtividade laboral cerca de 17% abaixo da média da OCDE. Cerca de 40% do emprego empresarial está concentrado em microempresas, que tendem a ter menor produtividade, menos capacidade de gestão profissional e menor investimento em tecnologia e inovação.

Fundamentar · Produtividade e microempresas · OCDE, 2026

O Economic Survey de Portugal aponta um desvio de produtividade próximo de 17% e cerca de 39% do emprego empresarial em microempresas. São medidas agregadas; não descrevem todas as pequenas empresas.

Consultar a referência ↗

Isto não é uma história sobre portugueses que trabalham pouco.

A série de horas trabalhadas da OCDE apresenta valores muito inferiores na Dinamarca aos portugueses. A própria OCDE adverte, porém, que diferenças de fontes e métodos não permitem comparar rigorosamente os níveis entre países.

Fundamentar · O limite da comparação de horas

A OCDE recomenda a série de horas anuais sobretudo para comparar tendências. As diferenças de recolha e metodologia limitam a comparação dos níveis entre países.

Consultar a referência ↗

Uma pessoa com uma pá pode trabalhar furiosamente durante dez horas. Outra aparece durante seis com uma escavadora.

Capital, tecnologia, competências, gestão, dimensão empresarial e acesso a grandes mercados são a escavadora.

Mas seria igualmente errado concluir:

Primeiro criamos riqueza; depois, se sobrar alguma coisa, fazemos política social.

Uma parte importante do modelo nórdico funciona na direcção inversa.

Educação, saúde, creches, seguro de desemprego e requalificação podem aumentar capital humano, participação laboral e mobilidade entre empregos.

Portanto, a relação interessante não é linear.

É circular:

Produtividade financia o Estado social; um Estado social bem desenhado pode ajudar a financiar a produtividade futura.

É aqui que começamos a ver o motor e não apenas as peças.

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04

Para pagar muito Estado é preciso muita gente a trabalhar

Este detalhe é fácil de perder.

Em 2024, a participação da população dos 15 aos 64 anos no mercado de trabalho era 83,8% na Suécia e 82,4% na Dinamarca. Em Portugal, 78,0%; em Espanha, 74,6%. A média da OCDE era 74,0%.

Participação inclui quem está empregado e quem está desempregado mas procura trabalho. Não é o mesmo que a taxa de emprego.

Fundamentar · Participação não é emprego · OCDE, 2024

População activa (empregados e desempregados) em percentagem da população dos 15 aos 64 anos, ambos os sexos. Uma participação maior só alarga a base contributiva laboral na medida em que se traduz em emprego e rendimentos.

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Um Estado social grande torna-se muito mais fácil de financiar quando essa participação se traduz em muita gente a trabalhar.

Mais contribuintes.

Menos pessoas permanentemente fora do mercado de trabalho.

Maior base fiscal.

O modelo não consiste apenas em cobrar muito.

Consiste também em cobrar a muitos.

E isso leva-nos a um dos números mais contra-intuitivos de toda esta história.

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05

Afinal quem paga isto tudo?

Imagine um trabalhador solteiro, sem filhos, a receber exactamente o salário médio do seu país.

Em 2025, o tax wedge — imposto sobre rendimento mais contribuições sociais do trabalhador e do empregador, líquido de prestações monetárias e em percentagem do custo laboral — era:

PaísCarga sobre o custo laboral
Dinamarca35,8%
Portugal39,3%
Suécia41,1%
Espanha41,4%
Média da OCDE35,1%
Fundamentar · Tax wedge · OCDE, 2025

Taxing Wages 2026, quadro 1.2. Compara o mesmo tipo de agregado e nível relativo de salário, não o mesmo rendimento em euros. Não inclui IVA nem todos os pagamentos obrigatórios a entidades privadas. Os valores dependem do rendimento e da situação familiar.

Consultar a referência ↗

Sim.

A Dinamarca, campeã da carga fiscal, tinha neste caso uma carga total sobre o trabalho inferior à portuguesa.

Não porque tenha descoberto os impostos baixos.

Não descobriu.

O imposto sobre rendimento representa uns enormes 35,1% do custo laboral desse trabalhador. Mas, nesta medida da OCDE, as contribuições sociais do trabalhador são zero e as patronais apenas 0,7%.

Portugal organiza a conta de outra maneira.

A conclusão não é que o sistema dinamarquês seja mais leve.

É que quanto cobramos é apenas metade da história. A forma como cobramos também altera incentivos.

E há outra desilusão para quem imaginava que o welfare state escandinavo era financiado sobretudo por multimilionários muito civilizados.

Não há multimilionários suficientes.

Na Dinamarca, em 2023, 57,2% da receita fiscal vinha do imposto sobre rendimento das pessoas. As contribuições sociais representavam apenas 0,2%; o IVA, 20,8%. Em Portugal, pelo contrário, as contribuições sociais pesavam 29,1% da receita, o IVA 25,3% e o imposto sobre rendimento das pessoas 19,4%.

Fundamentar · Estrutura fiscal · receitas de 2023

Revenue Statistics 2025, quadro 1.1. Estas parcelas são percentagens da receita fiscal, não do PIB nem do salário. A carga fiscal citada na abertura refere-se a 2024 e inclui contribuições sociais obrigatórias.

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Nem sequer há uma única fórmula nórdica. A Suécia tem uma estrutura fiscal bastante diferente da dinamarquesa.

Mas há um princípio difícil de evitar:

Um Estado social desta dimensão precisa de uma base fiscal muito larga.

A classe média paga.

Muito.

A pergunta seguinte é óbvia.

Porque aceita?

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06

Porque paga. Mas também usa.

É aqui que o universalismo deixa de ser apenas uma escolha moral e passa a ser uma peça política do sistema.

A classe média não paga exclusivamente para financiar serviços destinados aos pobres.

Também usa as escolas.

Usa a saúde.

Usa as creches.

Usa as universidades.

Usa os seguros sociais.

Na Suécia, o Estado financia 99,8% do ensino primário, secundário e pós-secundário não superior. Na Dinamarca, 93,4%. E isto pode incluir prestadores independentes: o serviço não tem necessariamente de ser prestado directamente pelo Estado para continuar dentro do sistema de financiamento colectivo.

Fundamentar · Financiamento da educação · Suécia

Education at a Glance 2025, dados de 2022. Parcela pública antes de transferências para o sector privado; mede financiamento, não a natureza jurídica de todos os prestadores.

Consultar a referência ↗
Fundamentar · Financiamento da educação · Dinamarca

A nota dinamarquesa da mesma edição apresenta 93,4% para os mesmos níveis de ensino, antes de transferências para o sector privado.

Consultar a referência ↗

Na saúde, o contraste com Portugal é ainda mais interessante.

Em Portugal, apenas 62% da despesa em saúde era coberta por regimes públicos ou seguros obrigatórios, nos dados de 2023. Em 2024, só 58% das pessoas diziam estar satisfeitas com a disponibilidade de cuidados de saúde de qualidade.

Na Suécia, eram respectivamente 86% e 75%.

Na Dinamarca, 83% e 86%.

Fundamentar · Saúde: financiamento e satisfação

Health at a Glance 2025, quadro 1.4: financiamento em 2023, satisfação em 2024. A satisfação é uma percepção declarada da disponibilidade de cuidados, não uma medida directa da qualidade clínica.

Consultar a referência ↗

E isto leva-nos a uma hipótese incómoda sobre Portugal.

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07

A espiral do “pago duas vezes”

Imagine-se uma família portuguesa de classe média.

Paga IRS.

Paga Segurança Social.

Paga IVA.

Depois precisa de uma consulta.

Não confia que a conseguirá no prazo de que necessita.

Compra um seguro de saúde.

Ou perde confiança na escola pública e paga também uma escola privada.

Nesse momento, deixa de estar a pensar na curva de Laffer ou na teoria do Estado social.

Pensa:

“Então para que é que estou a pagar isto tudo?”

Ainda não temos evidência suficiente para afirmar toda a cadeia seguinte como facto sobre Portugal.

Mas vale a pena tratá-la como hipótese.

A qualidade percebida do serviço diminui. Quem consegue procura uma alternativa privada. A família começa a sentir que paga duas vezes. A disponibilidade para financiar o sistema colectivo deteriora-se. E uma parte da classe média passa a ter menos interesse directo na qualidade do serviço público.

Se este ciclo ganhar escala, o problema já não é apenas operacional.

É político.

Um serviço universal pode começar lentamente a transformar-se num serviço para quem não consegue sair dele.

E talvez seja precisamente aqui que o universalismo nórdico tenha uma vantagem importante:

Quem paga muito continua a querer usar aquilo que paga.

Um Estado social universal não vive apenas porque os pobres precisam dele.

Vive também porque a classe média não o abandonou.

Contraponto · Uma hipótese a testar

Ter seguro ou usar prestadores privados não demonstra, por si só, abandono do apoio ao sistema público. Para testar a espiral seriam necessários dados que acompanhassem as mesmas famílias, as suas experiências, escolhas e atitudes ao longo do tempo.

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08

O estranho caso dos sindicatos que não destruíram o capitalismo

E chegamos à parte que devia estragar tudo.

Os sindicatos.

Na ficha da OCDE sobre a Dinamarca, 67% dos trabalhadores eram sindicalizados em 2019, 82% estavam cobertos por negociação colectiva em 2018 e as organizações patronais abrangiam cerca de 68% dos trabalhadores nesse mesmo ano. Não existe salário mínimo nacional definido por lei.

Fundamentar · Dinamarca · anos de referência

Ficha OCDE/AIAS: sindicalização em 2019; cobertura e densidade patronal em 2018. A cobertura ajustada considera trabalhadores com direito a negociar. Não são estimativas para 2025.

Consultar a referência ↗

Na Suécia, a cobertura da contratação colectiva era de 88% dos trabalhadores dos 18 aos 68 anos em 2025, segundo o instituto nacional de mediação laboral.

Fundamentar · Suécia · cobertura em 2025

O Medlingsinstitutet regista 88% dos empregados dos 18 aos 68 anos cobertos por acordos colectivos. A definição e o ano diferem da ficha dinamarquesa; os valores não formam uma comparação perfeitamente harmonizada.

Consultar a referência ↗

Isto não é simplesmente:

Sindicatos fortes.

É:

Sindicatos fortes + empregadores organizados + negociação repetida.

A OCDE classifica Dinamarca e Suécia como sistemas de organised decentralisation: grande parte da negociação acontece ao nível sectorial, mas existe margem de adaptação nas empresas e forte coordenação entre níveis.

Fundamentar · Descentralização organizada

A tipologia da OCDE combina negociação sectorial, espaço de adaptação nas empresas e coordenação. O argumento sobre incentivos é uma interpretação do desenho institucional, não uma lei universal sobre sindicatos.

Consultar a referência ↗

Há aqui uma diferença de incentivos.

Um sindicato muito abrangente não deixa magicamente de defender os trabalhadores.

Mas o custo de ignorar emprego, produtividade ou competitividade tende a ficar mais dentro da organização que está a negociar.

Não precisamos de acreditar numa excepcional bondade viking.

Instituições diferentes podem simplesmente produzir comportamentos diferentes.

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09

Despedir pessoas para as proteger

Parece uma contradição.

É por isso que a flexicurity dinamarquesa é interessante.

O objectivo não é garantir que todos conservam o mesmo emprego.

É permitir que empresas se adaptem sem deixar o trabalhador sozinho com o custo dessa adaptação.

A segurança muda de sítio.

Sai parcialmente do posto de trabalho e passa para a pessoa.

Seguro de desemprego. Formação. Serviços de emprego. Procura activa de nova colocação.

Na Suécia existem até Job Security Councils, instituições criadas através de acordos entre sindicatos e empregadores para apoiar trabalhadores em processos de reestruturação e transição profissional.

Fundamentar · Conselhos de transição profissional

O Economic Survey da Suécia de 2025 descreve os Job Security Councils e o apoio individualizado às transições. A protecção depende do conjunto de instituições e da sua cobertura efectiva.

Consultar a referência ↗

O princípio é mais interessante do que qualquer detalhe institucional:

Segurança não significa necessariamente manter o emprego que temos. Pode significar aumentar a probabilidade de continuarmos empregáveis.

Isto é importante numa economia onde empresas e tecnologias mudam.

Porque tentar impedir todas as mudanças económicas é uma forma muito cara de proteger trabalhadores.

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10

E porque não fica o privado soterrado?

Voltamos à pergunta inicial.

Como é que um Estado que arrecada mais de 40% do PIB em impostos e contribuições, emprega muita gente e regula extensivamente a sociedade não acaba inevitavelmente a asfixiar a iniciativa privada?

Talvez porque continuamos a confundir poder do Estado com capacidade do Estado.

Um Estado capaz consegue cobrar impostos, executar decisões, prestar serviços e aplicar regras de forma previsível.

Um Estado intrusivo consegue bloquear entradas, proteger incumbentes, mudar regras arbitrariamente e obrigar empresas e cidadãos a gastar recursos a navegar a administração.

Não é a mesma coisa.

A evidência comparada sobre qualidade regulatória sugere que Dinamarca e Suécia conseguiram combinar muito mais capacidade fiscal com ambientes institucionais consideravelmente mais favoráveis ao desenvolvimento privado do que Portugal ou Espanha.

Talvez o verdadeiro feito nórdico não seja terem pouco Estado.

É terem conseguido construir muito Estado sem a mesma quantidade de arbitrariedade.

Essa diferença é enorme.

Contraponto · Comparar não isola uma causa

Quatro países não bastam para medir o efeito causal dos impostos, da confiança ou das instituições. A comparação contraria uma incompatibilidade inevitável; não demonstra que qualquer aumento do Estado produzirá os mesmos resultados.

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11

Antes que façamos as malas para Copenhaga

Nada disto significa que encontrámos a sociedade perfeita.

Os próprios dinamarqueses estão a descobrir isso.

A OCDE descreve hoje uma economia dinamarquesa a duas velocidades: algumas grandes empresas exportadoras, particularmente farmacêuticas, têm tido um peso extraordinário no crescimento. Só o sector farmacêutico explicou mais de metade dos 3,5% de crescimento do PIB em 2024.

E até uma das jóias da coroa, os serviços públicos de emprego associados à flexicurity, está a ser reformada.

Em 2025, a Dinamarca decidiu reduzir a despesa anual destes serviços em 2,7 mil milhões de coroas até 2030, face aos 11,3 mil milhões de 2024, depois de críticas ao excesso de regras, processos e complexidade.

O modelo nórdico não funciona porque alguém encontrou a fórmula final e a gravou numa pedra.

Funciona, quando funciona, também porque é corrigido.

Talvez esse seja um detalhe mais importante do que parece.

Fundamentar · Dinamarca: crescimento e reforma · OCDE, 2026

O Economic Survey documenta a concentração do crescimento e o acordo de Abril de 2025 para os serviços públicos de emprego. Os 2,7 mil milhões de coroas são uma redução de despesa a atingir até 2030, não uma poupança já realizada.

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12

“Mas isso só funciona porque eles são escandinavos”

Há sempre esta saída.

Confiam mais uns nos outros. São mais disciplinados. Têm outra cultura. São sociedades pequenas. Têm outra história.

Tudo isso pode importar.

Mas “cultura” é uma palavra perigosa. Tem a extraordinária capacidade de explicar tudo sem nos obrigar a perceber grande coisa.

É perfeitamente plausível que níveis elevados de confiança tenham ajudado a construir estas instituições.

Também é plausível que décadas de instituições previsíveis, serviços razoavelmente bons, acordos cumpridos e baixa arbitrariedade tenham ajudado a preservar essa confiança.

Provavelmente as duas coisas se reforçam.

Cultura não é irrelevante.

Mas também não é destino.

Contraponto · Cultura e instituições: causalidade nos dois sentidos

O reforço entre confiança e instituições é apresentado como hipótese interpretativa. Não se mede aqui o peso relativo da história, da composição social ou das políticas, nem se assume que as instituições sejam transferíveis sem adaptação.

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13

Então o que copiamos?

Aqui está a parte desagradável.

Provavelmente não podemos copiar uma política.

Facilitar despedimentos sem segurança nas transições não é flexicurity. É apenas facilitar despedimentos.

Cobrar impostos dinamarqueses sem entregar serviços dinamarqueses não cria um welfare state nórdico. Cria contribuintes zangados.

Sindicatos fortes sem organizações patronais fortes e mecanismos de coordenação não reproduzem o modelo sueco.

E gastar mais dinheiro através de um Estado que não consegue transformar recursos em resultados não produz um Estado capaz.

Os nórdicos não descobriram uma medida milagrosa.

Construíram uma arquitectura em que diferentes instituições resolvem problemas diferentes — e em que os incentivos de umas limitam os excessos das outras.

O mercado cria riqueza e disciplina empresas pela concorrência.

O Estado socializa riscos que os indivíduos suportariam mal sozinhos.

Sindicatos e empregadores negociam salários e transições, em vez de deixarem tudo ao Estado ou tudo ao conflito.

E as regras tentam impedir que qualquer actor consiga capturar o sistema durante demasiado tempo.

Isto não exige santos.

Exige desenho institucional.

Impostos nórdicos sem serviços nórdicos dão contribuintes zangados. Flexibilidade sem segurança dá precariedade. Segurança sem adaptação dá rigidez. Sindicatos fortes sem parceiros patronais fortes dão conflito. Um Estado poderoso sem limites institucionais dá arbitrariedade.

Os comunistas escandinavos, afinal, não são comunistas.

Mas isso já todos sabíamos, não era?

A surpresa é outra.

A lição escandinava não é “mais Estado” nem “mais mercado”. É pôr cada um a fazer aquilo que faz melhor — e impedir que faça aquilo que faz pior.

E talvez seja essa a parte realmente difícil:

Não precisam que patrões, sindicatos ou governos sejam santos. Precisam que nenhum deles consiga fazer disparates durante muito tempo sem pagar parte da conta.

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As posições expressas são da responsabilidade de Hugo H. Macedo, não necessariamente de todos os membros do É o Sistema.

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