Em poucas palavras
- Melhorar a produtividade exige também que as empresas mais produtivas consigam crescer.
- A saída lenta de umas empresas e as dificuldades de escala de outras podem reforçar-se mutuamente.
- Três propostas: apoiar empresas novas, financiar crescimento e facilitar a mudança protegendo os trabalhadores.
Neste artigo
Portugal tem um problema de produtividade. Isso não é novidade. Também conhecemos a lista habitual de explicações: pouco capital por trabalhador, défices de qualificações, empresas pequenas, pouca tecnologia, gestão insuficiente.
Tudo isso é verdade. Mas dizer que precisamos de mais investimento, formação e tecnologia é quase tautológico. As economias mais produtivas têm precisamente mais dessas coisas.
A pergunta interessante é outra:
Porque é que o sistema português não produz suficientemente essa transformação?
A tese deste artigo é que uma parte importante da resposta está no processo de seleção económica. Empresas pouco produtivas conseguem continuar a reter trabalhadores, capital e clientes, enquanto empresas mais produtivas têm dificuldade em absorver esses recursos e ganhar escala.
Se uma empresa produz muito mais valor com os mesmos recursos, esperaríamos que crescesse, ganhasse clientes e contratasse. A concorrente menos produtiva deveria melhorar, encolher ou desaparecer.
Em Portugal, esse processo acontece demasiado devagar.
Perceber porquê leva-nos muito mais longe do que voltar a concluir que faltam investimento ou formação. E abre caminhos diferentes para a solução.
Produtividade não é trabalhar mais
Em 2024, um trabalhador em Portugal trabalhou, em média, 1.772 horas, segundo a série da OCDE. Na Dinamarca, a mesma série regista 1.372. Estes valores não permitem uma comparação rigorosa entre países, devido a diferenças de fontes e métodos. Separadamente, o diagnóstico da OCDE aponta para uma produtividade portuguesa cerca de 17% abaixo da sua média.
Fundamentar · Horas trabalhadas: números e limites da comparação
A série da OCDE regista 1.772 horas para Portugal e 1.372 para a Dinamarca em 2024. Inclui trabalho a tempo inteiro, parcial e durante parte do ano. A OCDE desaconselha comparações dos níveis entre países devido a diferenças metodológicas.
Consultar a referência ↗Produtividade não mede esforço. Pode medir-se por trabalhador ou por hora de trabalho; a medida por hora exprime o valor produzido em cada hora trabalhada.
Fundamentar · O desvio face à média da OCDE
O Economic Survey de 2026 refere um desvio de 17%. Não se deve calcular esse desvio a partir da comparação de horas acima: são indicadores distintos. O capítulo apresenta medidas por trabalhador e por hora.
Consultar a referência ↗Imagine duas pessoas igualmente competentes. Uma cava uma vala com uma pá; a outra opera uma escavadora. A segunda produz muito mais porque combina o seu trabalho com capital, tecnologia e uma organização diferente.
As competências também contam — e Portugal tem um problema real. No PIAAC de 2023, 42% dos adultos portugueses estavam no nível 1 ou abaixo em literacia, contra 26% na média da OCDE.
Fundamentar · Literacia dos adultos · PIAAC 2023
Adultos dos 16 aos 65 anos: 42% em Portugal e 26% na média da OCDE no nível 1 ou abaixo em literacia. O indicador avalia competências de leitura; não equivale à percentagem de analfabetismo.
Consultar a referência ↗Mas a produtividade não está apenas na pessoa. Está na combinação entre pessoas, capital, tecnologia, gestão e organização.
É por isso que outro dado é tão importante: entre empresas portuguesas com 5 a 9 trabalhadores, a produtividade no percentil 75 é mais do dobro da observada no percentil 25.
Explicar · Comparar empresas de dimensão semelhante
A OCDE compara os percentis 75 e 25, não a média de cada quartil. A análise cobre indústria transformadora e serviços de mercado não financeiros, com agregação setorial ponderada pelo emprego (2010–2022).
Consultar a referência ↗Empresas de dimensão semelhante, na mesma economia, conseguem resultados radicalmente diferentes.
E isto muda o problema.
Podemos tentar melhorar as empresas menos produtivas. Mas podemos também fazer com que as empresas que já demonstraram utilizar melhor os recursos cresçam e contem mais na economia.
↑ Voltar ao inícioO problema não é haver empresas pequenas
Cerca de 40% do emprego empresarial português está em microempresas.
Fundamentar · Microempresas e emprego
O Economic Survey de 2026 apresenta 39% do emprego empresarial em empresas com até nove trabalhadores. No texto, o valor é arredondado para cerca de 40%.
Consultar a referência ↗Isso não é necessariamente mau. Há excelentes empresas com cinco trabalhadores e empresas medíocres com 500.
O problema é que poucas deixam de ser pequenas.
O FMI conclui que as empresas portuguesas tendem a entrar pequenas, como noutros países, mas têm dificuldade em ganhar escala. Temos muitas empresas muito pequenas e relativamente poucas que conseguem transformar-se em empresas médias e grandes.
Fundamentar · FMI · Porque poucas empresas ganham escala
Ippei Shibata, Selected Issues Paper 2026/065. Identifica limitações de capital de risco, qualificações e obstáculos fiscais e regulatórios ao crescimento das empresas.
Consultar a referência ↗A pergunta central é, então:
Porque é que uma boa empresa portuguesa com 10 trabalhadores tem dificuldade em chegar aos 100 — e porque é que uma concorrente muito menos produtiva consegue continuar com os seus 10?
A segunda metade é essencial.
↑ Voltar ao inícioPorque sobrevivem empresas pouco produtivas?
Porque o mercado não elimina diretamente empresas pouco produtivas. Elimina empresas que deixam de ser economicamente viáveis.
E não é a mesma coisa.
Uma empresa pode produzir relativamente pouco por trabalhador e continuar a pagar salários, fornecedores, dívida e proprietário. Se os seus custos forem suficientemente baixos, tiver clientes relativamente estáveis, enfrentar pouca pressão concorrencial ou continuar a obter financiamento, pode sobreviver durante muitos anos.
Isto não exige fraude nem empresários irracionais. Basta que continuar seja economicamente racional.
A concorrência é, por isso, importante. Um estudo com empresas portuguesas entre 2004 e 2014 encontrou que reformas que aumentaram a concorrência em setores fornecedores de serviços aumentaram a produtividade das empresas a jusante e também a probabilidade de as empresas menos produtivas saírem do mercado.
Fundamentar · Concorrência e seleção empresarial
Estudo da OCDE de 2017 com dados de 2004–2014. Analisa reformas em setores a montante e efeitos na produtividade e saída das empresas que utilizam esses serviços.
Consultar a referência ↗O financiamento pode produzir o efeito inverso. Entre 2008 e 2016, um estudo do crédito empresarial português encontrou uma concentração elevada de crédito em empresas de produtividade muito baixa — chegando, no pico da crise, a 44% do crédito empresarial em dívida, em 2013. É evidência histórica de má alocação, não uma demonstração isolada da sua causa. Um mecanismo possível é que reconhecer uma perda seja tão oneroso para um banco que prolongar o financiamento se torne racional.
Fundamentar · Os 44% são um resultado histórico
Bank credit allocation and productivity: stylised facts for Portugal. O máximo ocorre em 2013, na amostra de 2008–2016. A produtividade baixa é medida ou inferida. O resultado não significa que 44% das empresas fossem inviáveis, nem descreve o crédito atual.
Consultar a referência ↗E sair também custa. Há dívida, contratos, trabalhadores, equipamentos e processos judiciais. Algumas empresas devem ser reestruturadas; outras deveriam libertar rapidamente os seus recursos.
Os dados da OCDE mostram que a contribuição da alocação de emprego entre empresas portuguesas para a produtividade piorou: entre empresas com dez ou mais trabalhadores, caiu de 8% para 4% entre 2010 e 2022. O indicador mede a associação entre produtividade e peso no emprego; não mede diretamente a alocação de capital nem significa que a produtividade total tenha caído para metade.
Explicar · O que mede a queda de 8% para 4%
Componente de alocação de emprego na decomposição Olley–Pakes, para empresas com dez ou mais trabalhadores. Na população que inclui microempresas, caiu de 26% para 24%. A medida é descritiva e não identifica, por si só, as causas da evolução.
Consultar a referência ↗Ou seja: o benefício associado à concentração do emprego nas empresas mais produtivas diminuiu.
↑ Voltar ao inícioO ciclo português
Mas fechar empresas pouco produtivas não chega. É preciso que outras consigam absorver os recursos libertados.
Uma empresa produtiva precisa de financiamento, gestores, trabalhadores, capacidade e mercados para passar de 10 para 100 ou 1.000 pessoas. E o FMI identifica precisamente dificuldades de escala e acesso limitado a capital próprio de crescimento entre as fragilidades portuguesas.
Os dois lados encontram-se aqui:
as empresas menos produtivas libertam recursos devagar; as mais produtivas absorvem-nos devagar.
O resultado é um ciclo:
Empresas pouco produtivas continuam viáveis → retêm capital, trabalhadores e clientes → empresas melhores crescem menos → exercem menos pressão concorrencial → a estrutura empresarial muda lentamente → a produtividade converge lentamente.
Há ainda um possível reforço: salários baixos podem tornar viáveis modelos pouco produtivos e reduzir o incentivo à automação. Há evidência internacional deste mecanismo, mas ainda não sabemos a sua importância quantitativa em Portugal.
Fundamentar · Salários e automação: evidência dos EUA
Lordan e Neumark estudam salários mínimos e empregos automatizáveis nos EUA, com dados de 1980–2015. É evidência de um mecanismo possível, não uma estimativa do efeito dos salários baixos em Portugal.
Consultar a referência ↗O essencial, porém, já está à vista.
Um equilíbrio económico pode ser mau no agregado mesmo quando cada agente está a tomar decisões individualmente racionais.
É isso que torna este um problema de sistema.
Contraponto · Seleção não explica tudo
A dispersão de produtividade também reflete setores, idade das empresas, mercados e modelos de negócio. O ciclo proposto é uma interpretação dos mecanismos; não é uma estimativa causal do peso de cada um.
Explorar o mecanismo
Onde se pode interromper o ciclo?
Interpretação do artigo · selecione uma etapa para aprofundar
Baixa produtividade não é inviabilidade
Uma empresa pode produzir pouco por trabalhador e ainda assim cobrir os seus custos. A sobrevivência não prova que seja a melhor utilização possível dos recursos.
Explorar esta ligação no artigo ↗Três mudanças para alterar o sistema
Se este diagnóstico estiver correto, não precisamos de vinte novas políticas de produtividade. Precisamos de mexer em alguns pontos de alavancagem.
↑ Voltar ao início1. Deixar de premiar empresas por permanecerem pequenas
Faz sentido simplificar obrigações para uma empresa pequena: um custo administrativo fixo pesa muito mais numa empresa com três pessoas do que numa com três mil.
Mas simplificação é diferente de subsidiar permanentemente a pequena dimensão.
Se queremos que boas empresas cresçam, devemos questionar benefícios fiscais, financiamento preferencial ou subsídios cuja principal condição seja continuar a ser PME.
A alternativa é simples: ajudar temporariamente empresas porque são novas, não indefinidamente porque são pequenas.
Durante os primeiros cinco anos, uma empresa poderia beneficiar automaticamente de um regime simples que reduzisse fricções ao investimento e preservasse capital para crescer. Sem candidaturas, júris ou certificações.
A regra essencial seria:
O benefício termina porque a empresa envelhece, não porque cresce.
Uma empresa com quatro anos e três trabalhadores teria o mesmo regime de uma com quatro anos e 300. Ao fim de cinco anos, ambas passariam ao regime normal.
Crescer nunca faria perder o benefício.
O Estado deixaria de premiar a pequena dimensão e passaria a dar às empresas novas algum espaço para testar, investir e ganhar escala.
Explicar · Uma proposta, não um regime em vigor
Os cinco anos são uma escolha proposta pelo autor. O desenho exigiria estimar custos e benefícios, evitar a recriação artificial de empresas e definir uma transição previsível para o regime normal.
2. Fazer o capital seguir quem demonstra capacidade para crescer
Uma empresa produtiva não consegue ganhar escala sem capital.
Para empresas cujo principal ativo é software, conhecimento ou propriedade intelectual, dívida bancária tradicional pode não chegar. Precisam de investidores dispostos a assumir risco e financiar crescimento.
A intervenção pública pode ajudar a desenvolver esse mercado, mas não deve ser medida pelos milhões públicos investidos.
Deveria responder a duas perguntas:
Quanto capital privado adicional apareceu por cada euro público?
As empresas financiadas cresceram mais e tornaram-se mais produtivas?
Se o dinheiro público substituiu investimento que aconteceria na mesma, pouco mudou. Se tornou possível financiar empresas produtivas que de outra forma não conseguiriam crescer, alterou o sistema.
Explicar · Como medir capital realmente adicional
É preciso estimar o que teria acontecido sem o apoio. Comparar empresas financiadas com um grupo comparável ajuda a distinguir o efeito do programa do crescimento que ocorreria de qualquer modo.
3. Fazer funcionar melhor a seleção — protegendo as pessoas
Do outro lado, empresas persistentemente pouco produtivas têm de melhorar, encolher ou sair mais depressa.
Isso transforma concorrência, reestruturação e insolvência em políticas de produtividade.
O objetivo não é provocar falências. É reestruturar depressa o que é viável e libertar depressa os recursos do que deixou de o ser.
Mas os trabalhadores não são máquinas que se deslocam sem custos. Uma mudança pode significar desemprego, perda de rendimento, formação ou mudança de residência.
Por isso, há uma diferença fundamental entre proteger o trabalhador e proteger indefinidamente o mesmo posto de trabalho.
Um sistema de proteção social eficaz pode tornar a economia mais dinâmica precisamente porque reduz o risco individual da mudança.
A medida de sucesso não deveria ser apenas quantas empresas sobrevivem ou quantas pessoas estão desempregadas. Deveríamos saber quanto tempo demora um trabalhador a chegar ao emprego seguinte, que salário recebe e se passou para uma empresa mais produtiva.
Contraponto · Os recursos não se deslocam automaticamente
Competências, localização e procura podem limitar a absorção por outras empresas. Facilitar saídas só melhora o sistema se existirem oportunidades, capacidade de contratação e apoio efetivo à transição.
Três medidas, uma lógica
| Problema | Mudança |
|---|---|
| Boas empresas permanecem pequenas | Apoiar temporariamente empresas novas, em vez de subsidiar permanentemente PME |
| Empresas produtivas não conseguem financiar a escala | Capital público avaliado pelo capital privado adicional e pelo crescimento que gera |
| Empresas pouco produtivas retêm recursos demasiado tempo | Mais concorrência e reestruturação rápida, com transição protegida para os trabalhadores |
Estas medidas não resolvem tudo.
Nem precisam de resolver.
São interessantes porque atacam diretamente o mecanismo que identificámos: quem consegue manter recursos e quem consegue conquistá-los.
↑ Voltar ao inícioA pergunta mudou
Sabemos que Portugal precisa de melhores qualificações, mais capital, tecnologia e gestão.
Já sabíamos isso antes deste artigo.
A questão que importa é outra:
Porque conseguem empresas pouco produtivas continuar a reter recursos — e porque não conseguem as mais produtivas tomá-los e crescer?
Nenhum empresário precisa de estar a decidir mal. Nenhum trabalhador precisa de trabalhar pouco. Nenhum banco precisa de estar a cometer um erro.
Ainda assim, podemos acabar com uma economia onde capital e pessoas permanecem demasiado tempo onde produzem menos valor.
É isso que significa dizer que é o sistema.
E é aí que devemos intervir.
↑ Voltar ao inícioAs posições expressas são da responsabilidade de Hugo H. Macedo, não necessariamente de todos os membros do É o Sistema.
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